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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Arquitetura Discreta, Luxo Absoluto. Quando o traço se torna desejo e o espaço, identidade. por: Alvaro Guillermo

 Arquitetura Discreta, Luxo Absoluto.

Quando o traço se torna desejo e o espaço, identidade.

Alvaro Guillermo

O mercado de luxo deixou de vender apenas produtos há muito tempo. Hoje, ele entrega experiências, narrativas e atmosferas. Nesse cenário, a arquitetura se revela como um dos ativos mais estratégicos e simbólicos. Em um mundo saturado por imagens e repetições, o espaço construído ainda tem o poder de ser único, memorável e, acima de tudo, desejável.

No luxo, a arquitetura é branding, porque reforça a identidade e apresenta a marca de forma rápida e eficaz:

  • arquitetura comunica valor simbólico: tempo, cultura, autoria.
  • cria cenários de exclusividade: irrepetíveis, singulares.
  • transforma marcas em experiências sensoriais, emocionais e imersivas.

A arquitetura também revela os desejos e os modos de vida das pessoas — seus anseios concretizados em três dimensões. Por isso, observamos uma mudança significativa nas escolhas para os ambientes: uma preferência crescente por propostas mais clean”, essenciais e autênticas.

O luxo silencioso: quando menos é muito mais.

A arquitetura pode ser a própria definição de luxo — sem ostentação, mas com sofisticação visceral.

Aman Tokyo (Japão) interiores da empresa Kerry Hill Architects, com Luxo minimalista inspirado nos templos japoneses é um grande exemplo. A luz, os materiais naturais e o silêncio criam uma experiência quase espiritual.





Villa Vals (Suíça) da SeARCH & CMA Architects é uma casa escondida na montanha, quase invisível na paisagem, mas deslumbrante por dentro. Um exemplo de luxo integrado à natureza.




Andronis Suites (Grécia) da kapsimalis architects Suítes cavadas nas falésias de Santorini, reinterpretando a arquitetura vernacular com sofisticação. O luxo está na vista e na paz.




Casa das Canoas (Brasil) de Oscar Niemeyer, ícone da brasilidade modernista. Ainda subexplorada como ativo de luxo nacional.



Uma oportunidade para o Brasil. Com uma tradição arquitetônica ímpar — do modernismo  e brutalismo às expressões vernaculares — o Brasil possui um capital simbólico extraordinário. Falta apenas convertê-lo em estratégia de marca, produto e narrativa.

Neste sentido a Arquitetura com bons projetos gera posicionamento, que é essencial para as marcas. É hora de tratá-la como vetor de diferenciação no mercado de luxo — nacional e internacional. A linguagem dos desejos torna arquitetura como reflexo de novos modos de viver.

O verdadeiro luxo não grita — ele sussurra com elegância.

Em tempos de repetição e excesso, a arquitetura pode ser exceção. E no luxo, exceção é sinônimo de valor.








segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Cidades para o ser humano.

A maioria das cidades foram pensadas para atender máquinas e automóveis, existe um posto de abastecimento de combustível em trechos curtos de circulação, às vezes em menos de 100 metros de distância encontramos dois ou três. Mas, não encontramos apoio ao ser humano nesse mesmo espaço, faltam bancos de descanso, áreas de sombreamento, entre outros. As cidades devem ser pensadas para o uso público do ser humano e um dos pontos mais evidentes desta desconsideração com o ser humano é a falta de banheiros públicos decentes com cuidados higiênicos que permitam, de fato, seu uso.


Os banheiros são um símbolo da cultura de hospitalidade do Japão mundialmente reconhecida. Reforçando esse conceito surgiu o projeto Tokyo Toilet, são 17 instalações projetados por arquitetos famosos e premiados como Tadao Ando e Kengo Kuma, que também serviram de cenário para o filme os dias perfeitos, indicado ao Oscar 2024.


As características formais e estéticas dos banheiros proporcionam ao local que estão instalados a referência urbana, proporcionando também à comunidade que mora na região um alto grau de pertencimento. Isto colabora para a preservação e cuidado dos ambientes, mesmo já tendo uma zeladoria especializada (representada no filme) e tecnicamente projetos que atendem às necessidades de higiene e inclusão. Isto também ajuda a promover e disseminar a importância da higiene pessoal, o que traz como consequência imediata a melhoria de qualidade de vida e saúde, e desta forma menor uso do sistema de saúde público.


Amayadori, Jingu-Dori Park, de Tadao Ando



O arquiteto Tadao Ando, vencedor do prêmio de Pritzker, desenvolveu este banheiro público circular com elemento vazado de metal vertical, criando privacidade, e mantendo a circulação do ar.

A altura e cobertura foi estruturada entre as cerejeiras no parque Jingu-Dori.

Segundo Ando "era vital criar um espaço confortável e seguro", ​​que denominou de Amayadori – (abrigo de chuva em japonês).



Banheiro, estação Ebusi, de Kashiwa Sato


O designer Kashiwa Sato, que criou o Branding para a varejista de roupas japonesas Uniqlo, criou esse banheiro quadrado a partir de frisos brancos de Alumínio. As instalações brancas e brilhantes geram aparência de limpeza. Sato quis criar um símbolo do bairro.




Banheiro, parque comunitário Haru-no-Agawa, por Shigeru Ban


Ban, vencedor do prêmio de Pritzker, desenhou 2 banheiros que ficaram famosos pelos materiais escolhidos de forma inusitada. O vidro colorido nas paredes transparentes, dá segurança higiênica e permite verificar se estão em uso.

Assim que o usuário entra e fecha a porta as fachadas coloridas dos banheiros se tornam opacas dando privacidade.  São três ambientes separados - um masculino, feminino e banheiro acessível - divididos por paredes espelhadas.



Banheiros públicos em Shibuya:

São 17 banheiros públicos em Shibuya redesenhados por 16 criadores do mundo todo, seguem em ordem alfabética: 

Fumihiko Maki, Junko Kobayashi, Kashiwa Sato, Kazoo Sato, Kengo Kuma, Marc Newson, Masamichi Katayama, Miles Pennington, Nao Tamura, NIGO®, Shigeru Ban, Sou Fujimoto, Tadao Ando, Takenosuke Sakakura, Tomohito Ushiro, Toyo Ito.


Artigo publicado na Revista MixDesign 77




terça-feira, 23 de maio de 2023

Luxo na arquitetura e interiores.

 Luxo na arquitetura e interiores.

Como a gestão do luxo pode ensinar nosso segmento.

Por Alvaro Guillermo





Um dos momentos mais importantes da palestra de Carlos Ferrerinha durante o Summit23 do Club Design Litoral Paulista foi que é possível ensinar técnicas e ferramentas de gestão do luxo para aplicá-las em todos os segmentos.  Ao longo de sua carreira de sucesso, principalmente à frente do grupo LVMH, como Diretor de Marketing, Comunicação e Novos Negócios da Louis Vuitton Caribe, América Latina e Brasil, finalizando como CEO da operação Brasil – sendo o mais jovem executivo em posição de Presidência no Grupo LVMH, Ferrerinha encontrou alguns pontos fundamentais que todas as empresas podem utilizar para manter-se num desafio constante de inovação e qualidade. Desta forma, cada vez que empresas atingem um novo patamar mais elevado de satisfação de seu cliente, é necessário pensar o próximo degrau acima, já que:

“paladar não retrocede”.


Esta frase resume bem este conceito de constante aprimoramento, é mais que o título de seu livro, é um lema que orienta empresas e equipes a perceberem o comportamento do ser humano.

Todos nós agimos desta maneira, nos acostumamos com alguns procedimentos e depois não aceitamos algo abaixo ou que precede o estágio de qualidade e atendimento já experimentado. Torna-se uma constante “Change is the only constant” Heraclito. Desta forma teremos sempre clientes cada vez mais exigentes.

 

Nosso mercado de arquitetura e interiores, já exerce um padrão de atendimento muito próximo ao que marcas de luxo utilizam em outros segmentos. 

Assim como todo nós queremos um tratamento especial do Banco X, pois temos uma conta especial, nossos clientes também entendem assim quando se relacionam conosco.

Isto levanta outro ponto crucial neste relacionamento entre marcas, empresas, especificadores e clientes: Exclusividade. Esta exclusividade não se oferece a todos, caso contrário deixa de ser exclusividade.

Quem busca atendimento especial deve buscar marcas que ofereçam essa exclusividade, e obviamente, isto tem valor, portanto não se discute preço. Luxo não tem a ver com preço e sim com desejo das marcas. Marcas de luxo são desejadas, produtos e serviços escolhidos por necessidade são comparados por preço.

 

As empresas devem buscar em suas identidades aquilo que podem fazer com excelência de forma que as torne desejáveis, criando formulas próprias, sem copiar os outros. E oferecer com exclusividade àqueles que desejam esse diferencial e podem pagar por ele.

A equação difícil é convencer o mercado que seus produtos e serviços custam mais caros, e não oferecem nada diferente da concorrência. Neste caso a comparação será por preço. Ou querer ter um tratamento exclusivo e especial, mas não querer pagar por isso, ou não ter um relacionamento com a marca que promova isso.

 

Tudo isto serve para todos, empresas de arquitetura e interiores, lojas do segmento e o cliente final.

Um grande exercício é colocar-se sempre na posição de cliente. Observe as suas reações frente a ofertas de produtos e serviços e imagine seu cliente na mesma posição, no ambiente digital e presencial. Veja como você se comporta quando chama um Uber e pense como seu cliente entende sua comunicação por whatsapp por exemplo. Ou veja como você reage a um atendimento num restaurante, numa espera longa, ou numa demora de atendimento na mesa já sentado, ou a demora à chegada dos pratos, e pense em seu cliente com seus serviços.

O Luxo está nos detalhes, nas emoções e desejos, que marcam um experiencia singular e exclusiva.



Artigo publicado originalmente na Revista Mix Design 70 (aniversário) Abr. 2023


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Pense de novo. O poder de saber o que você não sabe.

 


O novo livro de ADAM GRANT, editora Sextante, 2021, trata sobre a capacidade de repensar e desaprender em um mundo em que as mudanças ocorrem de forma rápida, e perceber que muito do que conhecemos e entendíamos como certo já não mais da mesma forma. Para isso é necessário treinar nosso olhar e ter o cérebro aberto a repensar nossos conceitos, adotando uma postura científica frente às informações, ou seja, observar e ouvir de forma científica. Para isso, procurar fontes mais confiáveis, outras opiniões, estar preparado a ser questionado, o que Grant chama de modo cientista, propondo duvidar do que sabe, ter curiosidade a respeito do que não sabemos e atualizar nossas opiniões frente a novos dados.

 

Nada mais adequado aos tempos que estamos vivendo de pandemia de Covid, politização e radicalização dos mais diversos temas, e um caminho bom para isso é ter humildade.

 

“O conceito de humildade costuma ser mal compreendido; não significa baixa autoestima. Uma das raízes latinas de humildade significa "da terra". Humildade é, portanto, ser pé no chão: reconhecer que temos defeitos e somos falhos.”pág 53.



Enquanto a humildade nos abre a possibilidade de aprender coisas novas a arrogância nos cega e nos faz crer que não é necessário repensar nossos conceitos.

 

Um outro ponto importante na visão do autor, que coincide com muitas pesquisas que realizei e está no título de meu novo livro, é a importância da colaboração e faz parte do coletivo.

 

“Repensar não é apenas uma habilidade individual. É uma capacidade coletiva, que depende muito das práticas de uma organização.”pág. 205





O exemplo apresentado da NASA nos demonstra como mesmo corporações de excelência precisam repensar métodos, procedimentos e conceitos. Talvez até por esse motivo, de terem alcançado altos níveis de excelência, acha uma acomodação no status da inteligência, e assim, mais uma vez as corporações precisam estar preparadas para este novo mundo de mudanças constantes e rápidas, por isso não adianta apenas mudar a cultura empresarial e sim, se preparar para desenvolver uma cultura corporativa de mudanças.


domingo, 12 de julho de 2020

No passado os óculos eram acessório de saúde, hoje com design são "fashion". No futuro será a vez das máscaras.

Num passado bem recente o uso de óculos era apenas para melhorar a qualidade da visão.

Aí entrou o design e mudou a relação do objeto, deixou de atender apenas a saúde para atender aos desejos pessoais, emocionais e a moda, virou "fashion".

Num futuro não muito distante será a vez das máscaras.




Lembro de na infância, amiguinhos que não queriam usar óculos, se sentiam mal, excluídos. Eram necessários, por questões de saúde, precisavam melhorar a visão. Mas seu uso era desconfortável, não conseguiam fazer esportes, brincar com a mesma desenvoltura que os demais. Hoje vejo crianças querendo usar óculos, mesmo sem necessidade de saúde, apenas por uma questão estética, de ter um acessório personalizado, que os identifique. É enorme a oferta de óculos sem grau, com lentes transparentes ou coloridas de grandes marcas. Como a Prada que lançou um óculos para ir ao cinema.







De Sofia Loren, passando pelo Fantástico Elton John, Marília Gabriela a Harry Potter, os óculos viraram uma febre e entraram para o mundo da moda, por que? principalmente pelo design.




As máscaras hoje são um acessório obrigatório, desrespeitar seu uso é taxado por multas. Tudo isto porque falta design. Assim que bons designers desenvolverem novos produtos, empresas oferecem diversidade, as mascaras serão acessórios pessoais, e num futuro breve farão parte da moda.

Não se trata apenas desta pandemia do Covid, mas também por outros critérios de saúde como poluição do ar, purificação do ar, afastar odores, interlocutor de comunicação de idiomas diferentes, entre outros atributos. Até que  o design das máscaras comece atrair nossos desejos de usar uma mesmo sem necessidade.







Vejam este caso:  Ao-air, que além de design tem também alta tecnologia. Garantem que pode ser até 50 vezes melhor do que as máscaras principais testadas. E de 5 a 25 vezes melhor do que o N95 na proteção contra partículas. Traz um sistema proprietário D'Fend e nanofiltração ativa que foram projetados a partir do nível molecular para protegê-lo e limpar 98%. O design foi pensado para  mostrar seu rosto, permitindo que respire livremente, sem selo ao redor da boca e do nariz. Esse sistema permite que o ar fresco e limpo escape confortavelmente da máscara ao redor do rosto, criando uma saída contínua e unidirecional que mantém o ar externo fora.


O que acham deste futuro?


Um pouco de história.



A palavra óculos surgiu na antiguidade clássica e vem do termo ocularium, que designava os orifícios feitos na parte superior das armaduras dos soldados para permitir que eles enxergassem.


O grande orador romano Cícero (106-43 dC) precisava de escravos para ler textos em voz alta.


O imperador Nero (37-68 dC) criou um instrumento visual especial para assistir as lutas entre gladiadores, usava uma pedra verde transparente, com isto a luz da pedra era mais refrescante aos olhos. Essa crença durou até o século 19 e até hoje esse tom de verde é definido para lentes solares.

O astrônomo árabe Ibn al-Heitam (c. 965-1040 DC) foi o primeiro a sugerir que lentes polidas poderiam ajudar pessoas com deficiência visual.


No século 13, monges italianos criam uma lente semi-esférica de cristal de rocha e quartzo que, ao ser colocada sobre um texto o ampliava. Nesse mesmo século as oficinas de vidro de Murano desenvolvem um vidro bem transparente para a época, os cristalleri, que sua produção foi um segredo bem guardado. Estes ganharam o termo “vidro para os olhos” e Leonardo da Vinci mais tarde os chamou de “janela da alma”, fazendo uma relação entre os Vidros e as janelas e os olhos e a visão das coisas imateriais, daí a alma.



Em 1270, na Alemanha, aconteceu outra grande mudança: foi criado o primeiro par de óculos unido por rebites e feito com aros de ferro. Ele ainda não possuía hastes e mais parecia um compasso.


Os "óculos de hastes" se disseminaram a partir de 1850, e o design se manteve inalterado no fim do século 19 e ao longo do século 20.


sábado, 5 de janeiro de 2019

Leo usava rosa. A introdução do rosa no vestuário por Leonardo Da Vinci.

Leo usava rosa.


Como é bom ter bons alunos!
Com a "deixa” do Rosa e Azul, Thalita Jimenez me lembrou de uma aula que dava na década de 90, muito antes de Dan Brown acabar com minha brincadeira, : ). Vou traduzir 2h/aula para as redes sociais.
O incrível Leonardo Da Vinci, usava Rosa.
Ele chegou nesse tom a partir do aproveitamento do vermelho (verme) carmim muito usado para tingir roupas em 1500, até que no século XVII, o rei francês Luís XIV instituiu o vermelho como a cor da nobreza. Outra curiosidade o Pau-Brasil (madeira em brasa) era usado como corante. 
Aproveitando ao máximo as propriedades do corante Leonardo chegou num tom de Rosa para ele adequado ao uso nas roupas, pois destaca a pele humana.
Por isso ele usava sempre uma túnica Rosa, que se tornou sua identidade. 
Assim foi retratado como Platão na belíssima obra de Raffaello Sanzio (Rafael), “Escola de Atenas”. Com o dedo apontando para cima, também característico dele.


Leonardo era gay, e andava publicamente com outros homens, o que passou a associar a cor Rosa ao grupo gay da época. Que com tamanha ignorância muitos associam ainda hoje.

Para encerrar, no belíssimo mural L'Ultima Cena ou também Il Cenacolo, que está lá em Milão, com uma perspectiva extremamente conceitual, Leonardo decidiu retratar Jesus no triangulo central com as cores Azul e vermelho, e a seu lado direito, esquerdo de quem olha, dentro de outro triangulo - espelhado em relação a Jesus, está João Evangelista, o mais jovem, que seria o discípulo que Jesus amava e que estava sempre ao seu lado. Outros acreditam ser Maria Madalena. 

O que se percebe nesta figura que a cor escolhida foi o Rosa, com o azul. Invertido em relação a Jesus. Acredito que Leonardo tenta assim introduzir sua identidade. Não importa nesta discussão se era João ou Maria. 
Leo usava rosa.



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Slow Design entrevista ao POrtal IG


















A reboque de um movimento mundial em busca de maior qualidade de vida e em contraponto ao conceito de “Tempo é dinheiro”, nasceu o Slow Design, que propõe que se repense a concepção do tempo, mais lento que o tempo da máquina, e o como o “gastamos” ao longo da vida. Para entender melhor essa nova forma de ver o mundo, bati um papo com o especialista no assunto, Alvaro Guillermo, consultor do Mais Grupo, vem escrevendo sobre isso faz tempo. Confira:
Como começou o movimento do slow? Começou com o slow food?
Guillermo – Sim, o movimento Slow foi uma reação que se iniciou com a chegada das redes de fast food a Europa, especialmente a Itália na década de 80. Desta forma, o Slow Food é o mais representativo e atuante, mas não exclusivo. De alguma maneira, naquele momento o fast food na Europa conseguiu atrair a atenção para fazer refletir sobre a velocidade que o século XX impôs. Na locomoção e em outras áreas a velocidade da máquina superando o homem não trouxe uma reação negativa tão grande quanto a que ocorreu na alimentação.


E como o conceito evoluiu?
Guillermo – Na década seguinte 90, a popularização da tecnologia digital, primeiro nos relógios, (de pulso e em máquinas- microondas etc) impregnou no cotidiano um ritmo muito superior. Como tudo que é cultural, leva um tempo para as pessoas perceberem e terem noção do significado de mudanças. Acho que a longevidade também possibilitou que pessoas, hoje acima de 50, ainda vivas e ativas, pudessem contar histórias sobre suas infâncias. Desta maneira é possível fazer comparações e avaliar se isto é melhor ou não para nossas vidas.
Este fato não ocorreu 150 anos atrás, quando da inserção da máquina na sociedade, ou seja, na sociedade industrial. A geração que não viveu com máquinas não foi maioria, nem viveu o suficiente para vencer o seu conceito, assim a máquina se inseriu rapidamente na sociedade e encontrou respaldo nos jovens e nas novidades. A máquina foi potencializada pelas guerras mundiais e pelo consumo desenfreado do pós guerra. Hoje a sociedade ainda não tem noção do significado desta mudança, mas começa a sentir desgastes e aos poucos encontra pontos em comum. E este ponto comum é a percepção do tempo e a noção do que fazemos durante este tempo de vida.
O que significa exatamente o slow design?
Guillermo – O Slow Design está em objetos e ambientes que permitem perceber que o tempo é mais lento do que o tempo da máquina, principalmente perceber o tempo.
Quando passamos por objetos e em ambientes que mal percebemos e admiramos, o fazemos no ritmo de velocidade da sociedade contemporânea baseada na máquina.
Quando percebemos estes ambientes ou objetos, só os percebemos quando diminuímos o ritmo, não precisamos parar, mas para haver percepção há necessidade de um ritmo mais lento.
Se isto estiver aí propositalmente, com uma intenção ou um desígnio, então há design. Este design que nos permite perceber objetos e ambientes no tempo certo são coerentes com o movimento Slow.
Se percebemos o tempo: então percebemos nossas vidas, e isso nos faz refletir.
Qual o ritmo de vida que queremos e como queremos viver nossa vida?
Qualquer reflexão se faz num ritmo mais lento que a máquina, pois a reflexão é individual, então é o tempo de cada um. O tempo humano, que é diferente em cada um de nós. Por isso é importante, pois tem a ver com cada um de nós. O tempo da máquina é igual para todos.
Nós somos seres singulares com percepções diferentes, e objetos e ambientes devem contribuir para esta percepção.
Outra visão é a da qualificação: no lugar de comprar cinco itens, o consumidor prefere um de excelente qualidade. Isso também é considerado Slow Design?
Guillermo – Não exatamente assim. Não importa só a quantidade, pode ser um único objeto, mas se este não for usufruído, e não trouxer esta importância, então tampouco cabe. Tem a ver com comprar sim, pois quando compramos estamos importamos um objeto até nós ( M.S. Cortella), tornando-o assim importante.
No ato da compra ou da obtenção do ambiente é que deve haver um conceito Slow. Uma compra rápida, por impulso, é uma compra sem reflexão, por tanto não tiramos o tempo certo para a decisão desta aquisição. Durante esta reflexão, o tempo de vida do objeto deve ser levada em conta, e esta reflexão dará ao objeto outro valor, que é diferente de preço e poderá surpreender, tanto vendedor quanto comprador. Objetos em que se percebe a mão do homem, que carregam consigo a noção do tempo que levou para ser feito e apresentado tendem a ter maior valor para os que buscam estes conceitos.
Como aplicar esse conceito na vida, no dia a dia, no trabalho?
Guillermo – As pessoas devem perceber que existem trabalhos e tarefas que podem ser executados por máquinas, e que podem substituir o homem.
Estas tarefas tendem a gerar ao executor a impressão de que ele é parte da máquina ( C. Chaplin em tempos modernos) e em geral a intervenção do homem parece “atrapalhar” aquilo que a máquina faria melhor sem sua influência. As pessoas precisam desempenhar tarefas que lhes demonstrem que sua passagem naquele momento de vida foi importante para todos os envolvidos. A melhor maneira de descobrir é na hora de acordar. Se tiver mais vontade de ficar na cama do que levantar para ir para a empresa, se faz necessário uma reflexão sobre seu cotidiano.
Muitas coisas podem contribuir para que as pessoas percebam que estão em ambientes onde o ser humano e o tempo de cada um é importante. Sempre lembrando que há profissionais adequados a gerar estes ambientes (arquitetos e designers de interiores).
Mas, posso dar algumas dicas:
Colocar plantas que tenham frutos, ou seja que mostrem o tempo natural.
Ambientes que vasos de flores são trocados sempre, e parece que as flores são de plásticos não contribuem para esta percepção.
Evitar espaços universais que para saber com quem está se falando há necessidade de ler a plaquinha com o nome na mesa.
Tentar criar um tempo de alimentação mais coerente com cada um e com objetos adequados a esta alimentação.
Espaços para conversas e leituras também contribuem.



As pessoas vivem falando que “não têm tempo”. Como falar de slow num mundo fast, como o nosso?
Guillermo – Exatamente por isso, todo mundo está falando a mesma coisa: Não Tenho Tempo para Nada! Como não? Todos temos o mesmo tempo. Então o que estamos fazendo é ajudar a entender porque as pessoas se sentem assim.
No meu caso, não estou aconselhando as pessoas a levarem uma vida Slow, estou dizendo que é possível em alguns momentos de nosso dia perceber que valeu a pena ter vivido. Geralmente quando chegamos em casa. Nossa casa se tornou o lugar da oxigenação, onde recuperamos energias para seguir num mundo fast.
O problema é que a maioria traz este mundo de velocidade, com alta tecnologia, com muita tecnologia de comunicação. Somos uma das sociedades com maior número de celulares e televisores por pessoas do mundo. Vivemos em ambientes mal projetados, com dimensões inadequadas, com poucas áreas verdes. A maioria das casas são similares entre si, assim como nas empresas que repetem as salas e as mesas, nossas casas são assim repetem as casa e as salas dos outros. É importante a valorização do lar, como reconhecimento da alma dos seus habitantes. Alma em latim é anima, é este percepção de que existe algo meu nesse momento e nesse lugar que nos anima a viver.
Qual a relação do slow design com a sustentabilidade?
Guillermo – Esta relação se dá pelo fato que a sustentabilidade é a possibilidade de que nós como seres humanos continuemos a existir num futuro.
Se o que fazemos não nos remete a isto, o fato se torna insustentável. Viver nesta velocidade não é sustentável, pois não vemos de forma viável uma vida melhor no futuro.
Esta relação entre o tempo do nosso agora e do futuro passa necessariamente por uma reflexão do tempo de cada um.
Que empresas e marcas já praticam o slow design, e de que maneira?
Guillermo – Existem empresas que praticam estes conceitos sem necessariamente saber do movimento Slow. Muitas optaram por mudar seus hábitos para favorecer as relações humanas.
Mas existem empresas que buscam desenvolver produtos que sejam melhores para o ser humano, que tragam estes valores, principalmente aqueles que demonstram a existência do tempo. Eu poderia citar a Segatto, de móveis planejados de alto padrão.
A empresa utiliza revestimentos em algumas portas que levam muito tempo para atingirem o grau de qualidade desejado.
Muitas vezes no tempo de fabricação de uma única porta revestida em couro, leva o tempo que uma fábrica fast consegue produzir todo o armário.
Mas o resultado final é perceptível, o processo não.
Ou seja, pessoas que se enfrentam a estes produtos logo colocam a mão sobre eles, como se o objeto a estivesse convidando a este toque mais demorado, enquanto que em produtos fast o olhar rápido faz a função.
Existem muitas lojas, spas, restaurantes, é facil perceber que quando entramos nestes ambientes desaceleramos.
Todas as culturas que precisam do tempo certo também fazem isto. Principalmente a do vinho.
Quando se começa a apreciar vinhos é notável como o usuário vai adquirindo experiência para saborear com mais tempo os melhores produtos. Aos poucos nosso paladar nos dá a noção do tempo e consequentemente seu valor. Por isso que as palavras sabor e saber tem a mesma origem. Sabedoria tem a ver com o conhecimento do tempo e o tempo do conhecimento.