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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Slow Design: Habitar o tempo

 Slow Design: Habitar o tempo

Alvaro Guillermo

O slow design é a arte de recuperar o prazer de estar no mundo. Não é nostalgia: é consciência. É reaprender o valor do tempo — esse bem invisível que molda o modo como vivemos, trabalhamos e sonhamos. Em uma cultura que acelera tudo, o verdadeiro luxo é desacelerar. Porque, no fim das contas, o tempo também precisa de casa.

Fui o primeiro no Brasil a tratar do slow design não como estilo, mas como visão de mundo. Sempre acreditei que design é estratégia: signos produzem significados — e significados movem pessoas, marcas e comportamentos.
Quando escolhemos materiais e produtos que carregam sinais do tempo, que revelam a passagem humana e não apenas o brilho industrial, algo muda. As pessoas se demoram. Tocam. Sentem o objeto com o corpo inteiro. O slow design entra em cena nesse instante — quando o tempo deixa de ser inimigo e volta a ser matéria.

Há três décadas, enquanto máquinas prometiam perfeição instantânea e fábricas apostavam em produzir mais, mais rápido e “melhor”, o feito à mão era visto como imperfeito. Uma suposta falha estética que o mercado queria esconder. 

Mas o tempo mostrou outra verdade: o artesanal, quando bem feito, carrega densidade, presença, humanidade. São marcas que não se compram em prateleiras — e fazem bem ao nosso bem-estar.

Hoje, depois de anos de telas luminosas, urgências infindáveis e ritmos que tentam rivalizar com algoritmos, o cansaço coletivo nos devolveu uma sensibilidade essencial. Voltamos a olhar nossos espaços com mais cuidado. Buscamos ambientes que acolham, que respirem, que não nos peçam desempenho, mas presença.
Aqueles conceitos de 30 anos atrás não ficaram velhos — ficaram atuais. Eram uma tendência antecipada; hoje são uma necessidade.

Slow não é ser lento. É agir com consciência do tempo que temos — e do tempo que queremos viver.
Arquitetura e interiores precisam considerar esse tempo: o da convivência, do descanso, do estudo, do cozinhar, do festejar… Antes de especificar objetos, é preciso compreender o ritmo real das pessoas que habitarão esses espaços.

Profissionais da área deveriam falar menos de tecnologia e mais de filosofia. Menos de produtos e mais de propósito. Porque projetar, afinal, é oferecer uma experiência de permanência. E a permanência — essa sim — é o tempo do luxo definitivo.

texto originalmente publicado na Revista MixDesign 86





sexta-feira, 30 de maio de 2025

“Thought for Humans.” O tema do Salão do móvel 2025 propõe o ser humano no centro da narrativa.

 Thought for Humans.”


O tema do Salão do móvel 2025 propõe o ser humano no centro da narrativa.


Alvaro Guillermo




Assim como venho escrevendo nos últimos artigos, o mundo tem reforçado a urgência de pensarmos mais na natureza – da qual fazemos parte e da qual dependemos para nossa sobrevivência. Aqui, cabe ressaltar a importância da arquitetura e do design como disciplinas voltadas para o futuro, permitindo ao público imaginar cenários por meio das propostas dos projetos. Quanto mais as imagens estiverem alinhadas com a natureza e o meio ambiente, mais fácil será para as pessoas entenderem que esses projetos visam proporcionar uma melhor qualidade de vida.

Thought for Humans.” (Pensamento para os Humanos.) é o tema da edição do Salone del Mobile 2025, que explorará as conexões profundamente enraizadas entre humanidade e design, luz e matéria. A proposta apresenta uma narrativa polifônica que consolida a primazia do evento como uma plataforma cultural e criativa.

O primeiro dos renomados curadores convidados a revelar um projeto extraordinariamente poderoso – criado especialmente para o Salone e graças a ele – é Robert Wilson, famoso designer de iluminação, reconhecido por sua abordagem inovadora ao integrar luz e diferentes formas artísticas. Ele retorna ao evento para criar uma nova "visão", intitulada Mãe, dentro de um espectro maior: Light is Life.

Com esse tema, o Salone del Mobile 2025 coloca os seres humanos no centro da narrativa e reafirma o design como um elemento essencial para aprimorar a qualidade da vida cotidiana. Sua campanha de marketing apresenta imagens evocativas que ilustram uma fusão harmoniosa entre formas humanas e materiais, evidenciando a profunda conexão entre o design e a experiência humana.

O fotógrafo responsável pelas imagens da campanha é Bill Durgin:
*"O trabalho fotográfico para este projeto foi concebido com atenção minuciosa aos detalhes, buscando capturar a essência da relação entre corpo, materiais e luz. Após anos de distanciamento físico, a nova campanha celebra o retorno ao toque, trazendo o foco de volta para a conexão entre o corpo humano e o design. A escolha dos materiais utilizados – madeira, metal, tecido e bioplástico – não é aleatória, mas profundamente alinhada aos valores do Salone del Mobile.

'Pensamento para Humanos.' é exatamente o que um ótimo design deve ser. Como seres humanos, estamos cercados por design todos os dias. Tudo ao nosso redor foi projetado por alguém, para alguém. Um grande design não é apenas esteticamente agradável – ele traz alegria às nossas interações diárias, seja ao nos movimentarmos pelos espaços, prepararmos o café da manhã, trabalharmos ou compartilharmos uma refeição em família. Ao projetar móveis, aprendi como os designers estudam o corpo humano, seus movimentos, habilidades e posturas, tudo para facilitar a vida. O design está enraizado na anatomia humana e se alimenta da interação contínua com ela.”*

Acompanhemos esse evento com esperança, pois Milão tem o poder de inspirar arquitetos e designers a repensarem seu próprio trabalho. O simples fato de estimular a reflexão já é, por si só, algo extremamente relevante.

Parabéns, Salone del Mobile 2025!


















Artigo publicado originalmente na revista MIXDesign 82

terça-feira, 12 de novembro de 2024

O futuro das cidades e as cidades do futuro.

Diante dos últimos desastres climáticos o mundo inteiro passou a entender a urgência de debater questões simples para a sobrevivência da espécie humana.

Isto parecia algo raro para o Brasil, a não ser pelas secas e incêndios recorrentes destas secas.

Mas as chuvas e alagamentos deste ano no Rio Grande do Sul demonstraram que temos muito mais com o que nos preocupar.

Algo que vem ocorrendo há muito tempo em várias cidades brasileiras, mas, que passado o evento climático é esquecido. Todo ano a cidade de São Paulo alaga com as chuvas de verão, a maioria esquece que São Paulo é uma cidade de rios (ver mapa), por baixo dessa cidade de asfalto e concreto existem milhares de córregos, riachos, rios e nascentes que emergem com as chuvas, que correm mais rápido pela cidade impermeável.


Rios da cidade de SãoPaulo



Balneário Camboriú em Santa Catarina, Olinda em recife e Fortaleza em Ceará, por exemplo, já não tem praias. As construções próximas à orla e a elevação do nível do mar tem acabado com a área de areia. Rio de janeiro registra frequentemente a invasão do mar nas avenidas da orla.

Santos não será diferente. Uma ilha com canais depende totalmente das marés oceânicas e da elevação do nível do mar.

Independente dos motivos, se trata de uma discussão longa, o certo é que nos últimos cem anos o nível do mar subiu 20 cm, crescimento que vem ocorrendo de forma exponencial, tendo a maior evolução de 2012 a 2023, ou seja, esta última década.

O importante neste momento é que arquitetos e designers se envolvam neste debate e apresentem ideias para retomar a pauta de uma visão de futuro das nossas cidades, que cidades gostaríamos de ter? Em que cidade gostaria de viver?

Precisamos desenvolver e disseminar pesquisas transdisciplinares focadas nas mudanças climáticas e bem-estar urbano social, cultural e espacial.

Cem anos atrás a visão de futuro eram cidades de concreto escuras e totalmente dependente das máquinas. Como mostra o filme Metrópoles de Fritz Lang ou a capa do livro Future Cities: Architecture and the Imagination de Paul Dobraszczyk. Será que acertou?


Fritz Lang. Film still from Metropolis. 1927 | MoMA


Future Cities: Architecture and the Imagination de Paul Dobraszczyk.



40 anos atrás a visão de futuro era de cidades tecnológicas, a alta tecnologia moldando o urbano. É isso que estamos vivendo?

E hoje, como vemos as cidades no futuro? Como você imagina que seria o futuro ideal de nossas cidades?

Muitos estudiosos estão apostando em cidades focadas no ser humano e na natureza, ou seja, sustentáveis.

Saímos da mata e do rural, com medo da solidão na natureza (fauna e flora) para viver em locais que passamos a chamar de urbes, polis, cidade, urbano. E em muito pouco tempo percebemos que o extremo não foi uma boa solução. Temos que alterar o foco com urgência, iniciando o quanto antes esta mudança. Principalmente porque a Natureza segue a ordem analógica do tempo certo de crescimento. Para termos árvores no futuro, precisamos começar o plantio já. Para termos águas limpas no futuro, precisamos tratar e cuidar da nascente já.

Repare na linha do tempo qual você escolhe?





artigo publicado na Revista MIXDesign 78





terça-feira, 5 de novembro de 2024

 ARQUITETURA DE LUXO E UM NOVO CONCEITO DE INTERIORES

POR ALVARO GUILLERMO


Como vimos nos artigos anteriores o conceito de luxo mudou, então o que caracteriza casas com arquitetura e interiores de luxo? O que agrega valor ao imóvel posicionando-o no mercado de luxo?



Obviamente o primeiro ponto, mas não o mais impor-tante, é a localização. Estar num condomínio de luxo, não necessariamente define a arquitetura de luxo, mas ajuda. Acesso ao local, segurança, áreas verdes preser-vadas e protegidas, boas dimensões dos lotes e sua posição em relação ao meio ambiente são pontos básicos.

No entanto é bom ressaltar que alguns empreendimentos de altíssimo padrão não tem acesso fácil. O Reserva Pituba em Alagoas é um condomínio que seu acesso se dá por aeroporto dentro do condomínio, chegando de jatinho e daí ao seu lote pode ir num voo curto de helicóptero ou carro. Isso permite que os moradores sejam de diversas cidades do país e exterior. O mesmo ocorre com algumas marinas e casas no litoral como Angra dos Reis onde o acesso é por iates pelo mar. Em todos estes casos o luxo está presente mais na relação com a natureza e o acesso é uma consequência.


A arquitetura de luxo valoriza o tempo do morador na sua casa, assim, a relação com o natural é prioridade, desta forma a arquitetura disponibiliza grandes áreas iluminadas, aberturas que permitem a entrada total da iluminação e ventilação natural. Por isso, estas casas tem estruturas que permitem grandes vãos livres. Muitas vezes à mostra, ou seja, o concreto aparente é um sinal que a estrutura foi pensada juntamente com a arquitetura. O mesmo ocorre com metal e madeira e em diversos ambientes.
Estes vãos livres com a abertura total das janelas permitem uma integração do interior com o exterior, e em seu uso diário as pessoas percorrem os ambientes sem perceber se estão dentro ou fora, é o que chamamos de In-out. Muitas marcas europeias de mobiliário vêm apresentando este conceito há mais de dez anos. Empresas como a Driade utilizam o mesmo mobiliário publicidades com fotos de interiores e exteriores, com chuva, neve e sol, tentando traduzir este novo conceito. A coleção de móveis
'Oh It Rains Outdoor da B8-B Itália desenhada por Philippe Starck é apresentada como uma sala de estar, só que pode ficar no exterior e na chuva.



Isto modificou totalmente o conceito de design de interiores, já que o ambiente tanto pode eventualmente estar com uso de interior como de exterior. O que também altera a escolha de materiais de acabamento e produtos como poltronas e sofás por exemplo. Seu design permite ser a extensão de uma sala de estar interna, ou ao mesmo tempo, a extensão de uma área gourmet, de piscina ou até de tudo ao mesmo tempo. Desta forma o sofá deve ser pensado para sofrer com a ação da intempérie, de pessoas sentando molhadas, ou usando roupas de festa.


No caso do Brasil este conceito parece ainda mais adequado, o clima tropical favorece a estar em casas onde não temos tanta necessidade de abrigo e sim mais de curtir a natureza, o que é um verdadeiro luxo. A Tidelli tem desenvolvido produtos desde sua origem com este conceito permitindo por exemplo refeições ao ar livre, um café da manhã com a vista para o mar, sentindo o cheiro, a brisa e o som da natureza. E a noite no mesmo ambiente um jantar ao luar. Esse é um dos conceitos que permitem valorizar o imóvel e classificar no mercado premium.

Artigo publicado originalmente na Mix design 72



quinta-feira, 14 de março de 2013

Slow Design Casa Cor Campinas



Pavilhão Slow Design é um dos destaques da CASA COR CAMPINAS 2012.
Assinada pelo arquiteto Otto Félix, a instalação artística baseada no conceito de slow design é um cubro de vidro, no qual o visitante da mostra poderá parar o tempo e… Sentir-se!
“Ninguém tem tempo para nada. Estamos correndo, vindo e indo para algum lugar e nunca estamos de fato. Como as pessoas percebem as coisas ao seu redor em meio a esta correria desatinada? O estar para a arquitetura é muito importante, é valorizar o tempo do homem e é essencial para o conforto físico e para a mente das pessoas. Portanto, valendo-me do conceito de slow design do designer teórico argentino Alvaro Guillermo, imaginei uma instalação dentro da mostra que fizesse com que as pessoas parassem por alguns minutos para simplesmente sentir”,revela Félix.


O arquiteto conta que o projeto foi elaborado para mexer com todos os sentidos dos visitantes da exposição. Do lado de fora, o que se enxerga é um cubo de vidro que muda de cor conforme a luz do dia – tudo graças a uma película tecnológica da 3M, chamada Dichroic Films da 3M™, lançamento nacional. Ao entrar na instalação uma passarela de EVA, macia, provoca o visitante a mudar o ritmo do dia-a-dia e começar a experimentar o ambiente. Internamente, as paredes e o teto do cubo de vidro são compostos de desenhos feitos em chapas cortadas a laser e que formam ruas e quadras, remetendo a uma malha urbana, à cidade. A iluminação solar sobre as chapas compõe formas que, somadas ao espelho d´água logo a frente da passarela de EVA, instigam o sentido de atemporalidade.

Atrás do espelho d´água está instalado um grande painel laranja (de 5,0m x 2,5m) formado por um enorme trançado de borracha. “Tudo foi feito manualmente, pois o slow design valoriza muito o tempo do artesão, é percebido como um valor. Em última instância, dizem que o futuro é sustentável, sem processo industrial, características do conceito do slow design”, explica Félix. Parte do painel forma uma poltrona, uma espécie de cadeira de balanço moderna, desenhada pelo próprio arquiteto. “A ideia dessa poltrona vem justamente da cadeira de balanço e ao que ela nos remete. Ao nos recostarmos em uma cadeira de balanço, é necessário que tiremos o pé do chão, nos concentremos no movimento de ir e vir, pendular, desta cadeira. Para fazer isso, precisamos de tempo e acabamos relaxando. O pendulo também é como medimos o tempo no ocidente”, diz.
Para completar as sensações da instalação, Otto Félix escolheu como som ambiente a música minimalista de Philip Glass, Glass Works. “É uma técnica extrema, ao piano. Tudo a ver com o slow design”, conta o arquiteto. “Não espero que os visitantes compreendam cada detalhe pensado. A minha ideia é que eles sintam apenas, que façam uso do take your time”, conclui Félix.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Slow Design entrevista ao POrtal IG


















A reboque de um movimento mundial em busca de maior qualidade de vida e em contraponto ao conceito de “Tempo é dinheiro”, nasceu o Slow Design, que propõe que se repense a concepção do tempo, mais lento que o tempo da máquina, e o como o “gastamos” ao longo da vida. Para entender melhor essa nova forma de ver o mundo, bati um papo com o especialista no assunto, Alvaro Guillermo, consultor do Mais Grupo, vem escrevendo sobre isso faz tempo. Confira:
Como começou o movimento do slow? Começou com o slow food?
Guillermo – Sim, o movimento Slow foi uma reação que se iniciou com a chegada das redes de fast food a Europa, especialmente a Itália na década de 80. Desta forma, o Slow Food é o mais representativo e atuante, mas não exclusivo. De alguma maneira, naquele momento o fast food na Europa conseguiu atrair a atenção para fazer refletir sobre a velocidade que o século XX impôs. Na locomoção e em outras áreas a velocidade da máquina superando o homem não trouxe uma reação negativa tão grande quanto a que ocorreu na alimentação.


E como o conceito evoluiu?
Guillermo – Na década seguinte 90, a popularização da tecnologia digital, primeiro nos relógios, (de pulso e em máquinas- microondas etc) impregnou no cotidiano um ritmo muito superior. Como tudo que é cultural, leva um tempo para as pessoas perceberem e terem noção do significado de mudanças. Acho que a longevidade também possibilitou que pessoas, hoje acima de 50, ainda vivas e ativas, pudessem contar histórias sobre suas infâncias. Desta maneira é possível fazer comparações e avaliar se isto é melhor ou não para nossas vidas.
Este fato não ocorreu 150 anos atrás, quando da inserção da máquina na sociedade, ou seja, na sociedade industrial. A geração que não viveu com máquinas não foi maioria, nem viveu o suficiente para vencer o seu conceito, assim a máquina se inseriu rapidamente na sociedade e encontrou respaldo nos jovens e nas novidades. A máquina foi potencializada pelas guerras mundiais e pelo consumo desenfreado do pós guerra. Hoje a sociedade ainda não tem noção do significado desta mudança, mas começa a sentir desgastes e aos poucos encontra pontos em comum. E este ponto comum é a percepção do tempo e a noção do que fazemos durante este tempo de vida.
O que significa exatamente o slow design?
Guillermo – O Slow Design está em objetos e ambientes que permitem perceber que o tempo é mais lento do que o tempo da máquina, principalmente perceber o tempo.
Quando passamos por objetos e em ambientes que mal percebemos e admiramos, o fazemos no ritmo de velocidade da sociedade contemporânea baseada na máquina.
Quando percebemos estes ambientes ou objetos, só os percebemos quando diminuímos o ritmo, não precisamos parar, mas para haver percepção há necessidade de um ritmo mais lento.
Se isto estiver aí propositalmente, com uma intenção ou um desígnio, então há design. Este design que nos permite perceber objetos e ambientes no tempo certo são coerentes com o movimento Slow.
Se percebemos o tempo: então percebemos nossas vidas, e isso nos faz refletir.
Qual o ritmo de vida que queremos e como queremos viver nossa vida?
Qualquer reflexão se faz num ritmo mais lento que a máquina, pois a reflexão é individual, então é o tempo de cada um. O tempo humano, que é diferente em cada um de nós. Por isso é importante, pois tem a ver com cada um de nós. O tempo da máquina é igual para todos.
Nós somos seres singulares com percepções diferentes, e objetos e ambientes devem contribuir para esta percepção.
Outra visão é a da qualificação: no lugar de comprar cinco itens, o consumidor prefere um de excelente qualidade. Isso também é considerado Slow Design?
Guillermo – Não exatamente assim. Não importa só a quantidade, pode ser um único objeto, mas se este não for usufruído, e não trouxer esta importância, então tampouco cabe. Tem a ver com comprar sim, pois quando compramos estamos importamos um objeto até nós ( M.S. Cortella), tornando-o assim importante.
No ato da compra ou da obtenção do ambiente é que deve haver um conceito Slow. Uma compra rápida, por impulso, é uma compra sem reflexão, por tanto não tiramos o tempo certo para a decisão desta aquisição. Durante esta reflexão, o tempo de vida do objeto deve ser levada em conta, e esta reflexão dará ao objeto outro valor, que é diferente de preço e poderá surpreender, tanto vendedor quanto comprador. Objetos em que se percebe a mão do homem, que carregam consigo a noção do tempo que levou para ser feito e apresentado tendem a ter maior valor para os que buscam estes conceitos.
Como aplicar esse conceito na vida, no dia a dia, no trabalho?
Guillermo – As pessoas devem perceber que existem trabalhos e tarefas que podem ser executados por máquinas, e que podem substituir o homem.
Estas tarefas tendem a gerar ao executor a impressão de que ele é parte da máquina ( C. Chaplin em tempos modernos) e em geral a intervenção do homem parece “atrapalhar” aquilo que a máquina faria melhor sem sua influência. As pessoas precisam desempenhar tarefas que lhes demonstrem que sua passagem naquele momento de vida foi importante para todos os envolvidos. A melhor maneira de descobrir é na hora de acordar. Se tiver mais vontade de ficar na cama do que levantar para ir para a empresa, se faz necessário uma reflexão sobre seu cotidiano.
Muitas coisas podem contribuir para que as pessoas percebam que estão em ambientes onde o ser humano e o tempo de cada um é importante. Sempre lembrando que há profissionais adequados a gerar estes ambientes (arquitetos e designers de interiores).
Mas, posso dar algumas dicas:
Colocar plantas que tenham frutos, ou seja que mostrem o tempo natural.
Ambientes que vasos de flores são trocados sempre, e parece que as flores são de plásticos não contribuem para esta percepção.
Evitar espaços universais que para saber com quem está se falando há necessidade de ler a plaquinha com o nome na mesa.
Tentar criar um tempo de alimentação mais coerente com cada um e com objetos adequados a esta alimentação.
Espaços para conversas e leituras também contribuem.



As pessoas vivem falando que “não têm tempo”. Como falar de slow num mundo fast, como o nosso?
Guillermo – Exatamente por isso, todo mundo está falando a mesma coisa: Não Tenho Tempo para Nada! Como não? Todos temos o mesmo tempo. Então o que estamos fazendo é ajudar a entender porque as pessoas se sentem assim.
No meu caso, não estou aconselhando as pessoas a levarem uma vida Slow, estou dizendo que é possível em alguns momentos de nosso dia perceber que valeu a pena ter vivido. Geralmente quando chegamos em casa. Nossa casa se tornou o lugar da oxigenação, onde recuperamos energias para seguir num mundo fast.
O problema é que a maioria traz este mundo de velocidade, com alta tecnologia, com muita tecnologia de comunicação. Somos uma das sociedades com maior número de celulares e televisores por pessoas do mundo. Vivemos em ambientes mal projetados, com dimensões inadequadas, com poucas áreas verdes. A maioria das casas são similares entre si, assim como nas empresas que repetem as salas e as mesas, nossas casas são assim repetem as casa e as salas dos outros. É importante a valorização do lar, como reconhecimento da alma dos seus habitantes. Alma em latim é anima, é este percepção de que existe algo meu nesse momento e nesse lugar que nos anima a viver.
Qual a relação do slow design com a sustentabilidade?
Guillermo – Esta relação se dá pelo fato que a sustentabilidade é a possibilidade de que nós como seres humanos continuemos a existir num futuro.
Se o que fazemos não nos remete a isto, o fato se torna insustentável. Viver nesta velocidade não é sustentável, pois não vemos de forma viável uma vida melhor no futuro.
Esta relação entre o tempo do nosso agora e do futuro passa necessariamente por uma reflexão do tempo de cada um.
Que empresas e marcas já praticam o slow design, e de que maneira?
Guillermo – Existem empresas que praticam estes conceitos sem necessariamente saber do movimento Slow. Muitas optaram por mudar seus hábitos para favorecer as relações humanas.
Mas existem empresas que buscam desenvolver produtos que sejam melhores para o ser humano, que tragam estes valores, principalmente aqueles que demonstram a existência do tempo. Eu poderia citar a Segatto, de móveis planejados de alto padrão.
A empresa utiliza revestimentos em algumas portas que levam muito tempo para atingirem o grau de qualidade desejado.
Muitas vezes no tempo de fabricação de uma única porta revestida em couro, leva o tempo que uma fábrica fast consegue produzir todo o armário.
Mas o resultado final é perceptível, o processo não.
Ou seja, pessoas que se enfrentam a estes produtos logo colocam a mão sobre eles, como se o objeto a estivesse convidando a este toque mais demorado, enquanto que em produtos fast o olhar rápido faz a função.
Existem muitas lojas, spas, restaurantes, é facil perceber que quando entramos nestes ambientes desaceleramos.
Todas as culturas que precisam do tempo certo também fazem isto. Principalmente a do vinho.
Quando se começa a apreciar vinhos é notável como o usuário vai adquirindo experiência para saborear com mais tempo os melhores produtos. Aos poucos nosso paladar nos dá a noção do tempo e consequentemente seu valor. Por isso que as palavras sabor e saber tem a mesma origem. Sabedoria tem a ver com o conhecimento do tempo e o tempo do conhecimento.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Slow Design: uma nova forma de reflexão

Gerar bem-estar a indivíduos, sociedade e meio ambiente é o objetivo do Slow Design, que reúne economia criativa, preocupação ambiental e emocional em um único conceito. Já é aplicado por grandes corporações, como o Google, e visa melhorar a produtividade a partir de espaços, móveis e modelos de produção.



entrevista para a HSM.



quinta-feira, 17 de maio de 2012

Slow Design - uma filosofia

matéria publicada na revista Casa e Jardim deste mês nas bancas, Slow Design marca os lançamentos de Milão 2012.

Matéria de Simone Quintas, produzida por Nuria Uliana.